Gesso fresco

Da bicicleta, avistei o menino e a moça. Parecia ser a mãe. Ela olhava um papel, que logo guardou numa sacolinha junto com duas ou três caixas. Deviam ser a receita e os remédios, pois o menino tinha os braços engessados. Não enfaixados, engessados mesmo. Logo vi que o menino também tinha dor, já que a moça o consolava com um cafuné desajeitado. Enquanto seguiam devagarinho até a faixa de pedestres à minha frente, fiquei imaginando como o menino conseguiu quebrar os dois braços de uma só vez.

O sinal havia fechado para eles, então aproveitei para pedalar mais rápido. Fui chegando mais perto, mais perto, e não demorou para que eu passasse por eles bem rápido. Ainda em tempo de ver a roupa do menino suja de gesso fresco e o rosto preocupado da moça. Resolvi ir mais e mais rápido e fiquei imaginando como ele segurou a dor de um braço enquanto o outro era colocado no lugar.

Pedalando cada vez mais, como se quisesse fugir dos meus próprios pensamentos, fui me afastando do menino e da moça. Não conseguia parar de imaginar como seriam os próximos dias dele sem poder usar os braços. Como iria comer, tomar banho ou mesmo empinar pipa agora? Continuei pedalando forte até que, num lapso de curiosidade, decidi olhar para eles uma última vez antes de seguir meu caminho.

Deu tempo de ver ambos ficarem para trás, mas não de desviar do impacto à frente.

Horas depois, quando acordei, não precisei imaginar mais nada sobre o menino.

Começou

Um blogue simples pra reunir o que já escrevi e vou escrever.

Só isso. Nem tanto. Talvez mais.